Fundador da Ring revela a nova era do ‘assistente inteligente’ da empresa de câmeras.

por Robson Caitano

Retorno de Jamie Siminoff à Ring

O Contexto e a Motivação

O que é necessário para trazer um fundador exausto de volta à empresa que vendeu para a Amazon? Para Jamie Siminoff, da fabricante de campainhas inteligentes Ring, a resposta foi o potencial da inteligência artificial (IA) e os incêndios nos Palisades, que destruíram sua garagem, local de origem da Ring.

Siminoff tem a visão de transformar a Ring de uma empresa de campainhas de vídeo em um "assistente inteligente" para toda a casa e além. Um conjunto de novas funcionalidades que avançam nesse objetivo foi apresentado logo antes da Consumer Electronics Show (CES) deste ano em Las Vegas. Entre elas estão alertas de incêndio, notificações sobre "eventos não usuais", IA conversacional, reconhecimento facial, entre outras. Algumas dessas adições geraram controvérsia, pois os consumidores enfrentam a questão de até que ponto estão abrindo mão de sua privacidade em prol da conveniência e segurança. Juntas, essas novidades apontam para a mais recente fase da empresa.

Visão de Futuro

“Vire a IA para trás — é IA, é um assistente inteligente”, explicou Siminoff durante uma conversa na CES da semana passada. “Continuamos fazendo essas coisas juntas que nos tornam mais inteligentes, e que fazem com que, para você, exista uma carga cognitiva menor.”

Em 2023, cinco anos após a venda da Ring para a Amazon, Siminoff estava trabalhando em alta velocidade há tanto tempo que sentiu que precisava se afastar. "Eu construí a empresa na minha garagem… Estive presente em todo o processo. Depois fomos para a Amazon, e acelerei ainda mais — como se estivesse pisando no acelerador”, disse Siminoff à TechCrunch. “Não cheguei à Amazon e disse: ‘Sou um empreendedor que saiu, vou relaxar’”, acrescentou. “Acelerei a p*** do carro.”

Ele decidiu deixar a gigante do varejo porque sentiu que era o momento adequado — a Ring havia entregue seus produtos e se tornado lucrativa. Logo, os avanços em inteligência artificial o levaram a repensar seus planos.

Retorno à Ring

Embora Siminoff pudesse ter feito qualquer coisa, ele não tinha motivação para iniciar algo novo, pois estava mais entusiasmado com as possibilidades de construir sobre a plataforma da Ring. “A IA surge, e você percebe: ‘Oh meu Deus, há tanto o que podemos fazer’”, afirmou Siminoff. “E então os incêndios aconteceram”, referindo-se aos devastadores incêndios de Palisades, que afetaram seus vizinhos e queimaram a parte de trás de sua casa, destruindo a garagem onde a Ring foi criada.

Uma das novas funcionalidades da Ring, chamada "Fire Watch", foi inspirada nessa tragédia. Em parceria com a organização sem fins lucrativos Watch Duty, os clientes da Ring poderão optar por compartilhar filmagens quando um grande incêndio ocorrer, permitindo que a organização crie um mapa melhor que pode ser usado para despachar recursos de combate a incêndios de maneira mais eficiente. A inteligência artificial será utilizada nesse caso para detectar fumaça, fogo, brasas e mais nas filmagens compartilhadas.

Funcionalidades Inovadoras

Outra funcionalidade recente da IA, chamada "Search Party", também busca resolver problemas do mundo real, ajudando pessoas a encontrar seus animais de estimação perdidos. Essa função tem reunido uma família por dia com seus cães — uma taxa mais alta do que Siminoff esperava.

“Eu esperava encontrar um cachorro até o final do primeiro trimestre… esse era meu objetivo. Ninguém nunca fez nada remotamente parecido, e eu não sabia como a IA funcionaria”, admitiu. A IA, uma espécie de "reconhecimento facial para cães", tenta combinar uma imagem postada de um animal de estimação perdido com gravações da Ring, que os usuários optam por compartilhar ao receber um alerta sobre uma possível correspondência.

Controvérsias e Parcerias

Outras iniciativas, no entanto, geraram preocupações, especialmente aquelas que viram a empresa firmar parcerias com órgãos de segurança. Em 2024, a Ring encerrou um conjunto anterior de parcerias com a polícia que permitiam que as autoridades solicitassem filmagens de proprietários da Ring após uma reação negativa de clientes. No entanto, neste ano, a empresa avançou com novos acordos com empresas como Flock Safety e Axon, que reintroduziram ferramentas que novamente permitem que as autoridades solicitem imagens e vídeos dos clientes da Ring.

Siminoff defende as decisões da empresa nesse campo, afirmando que os clientes podem escolher se desejam ou não compartilhar suas filmagens da Ring. “A agência que faz o pedido nem sabe que ela solicitou de você”, explica. Quando a polícia está à procura de alguém que vem quebrando carros em certa área geográfica, um alerta é enviado, e os clientes podem responder se decidirem. Se optarem por não colaborar, isso permanece anônimo.

Ele também menciona o tiroteio na Brown University em dezembro, afirmando que uma combinação de câmeras de vigilância — incluindo as da Ring, segundo Siminoff — ajudou a localizar o atirador em massa. “O escrutínio é válido… Eu o acolho, mas estou feliz que conseguimos enfrentá-lo, porque no caso do tiroteio na Brown, a polícia precisava disso”, afirma o fundador. “Se tivéssemos cedido às incertezas das pessoas e ao escrutínio que nos impuseram — o que eu não considero correto — a polícia não teria tido uma ferramenta para tentar ajudar a encontrar esse [atirador], e a comunidade não teria conseguido compartilhar o que estava acontecendo com tanta agilidade.”

Preocupações e Proteção de Dados

Apesar do sucesso na captura do suspeito do tiroteio, ainda existem preocupações sobre o que a crescente coleta de dados de clientes pode significar para o país. Além disso, alguns temem que os dados possam ser mal utilizados para perseguir qualquer um que o governo decida almejar.

Outra funcionalidade de IA, chamada "Familiar Faces", também enfrentou resistência de organizações de proteção ao consumidor, como a EFF, além de um senador dos Estados Unidos. Essa característica utiliza IA para permitir que a Ring identifique e armazene os rostos de pessoas que entram e saem da casa regularmente, incluindo seus nomes, se fornecidos. Desse modo, um cliente pode receber um alerta de que “a mãe” está na porta da frente ou que a babá chegou, ou que as crianças voltaram da escola, por exemplo. A funcionalidade também pode ajudar a desabilitar alertas sobre pessoas cujas entradas e saídas não precisam ser monitoradas.

Siminoff também defende essa adição como uma forma de personalizar a experiência do usuário e adaptar o software à “impressão digital” única de sua casa. Dessa forma, o cliente precisa interagir menos com os produtos da Ring, a não ser em situações que exijam atenção.

Ele argumenta que essa adição fortalece a confiança dos clientes da Ring, em vez de miná-la. “Nossos produtos não estarão nas casas de vizinhos se eles não confiarem em nós… Não temos incentivo para fazer algo que comprometeria a confiança com nossos vizinhos em manter sua privacidade”, diz Siminoff. “Qualquer um — e eu respeitaria — retiraria sua câmera de sua casa se sentisse que estávamos violando sua privacidade.”

Com a expansão da Ring para sistemas de câmeras comerciais, incluindo câmeras montadas, uma linha de sensores e um trailer movido a energia solar, apresentado logo antes da CES, a base de clientes da empresa não se restringirá apenas a vizinhos protegendo suas casas, mas também incluirá empresas, locais de trabalho, campi, festivais, estacionamentos e diversos outros ambientes.

Artigos Relacionados

Deixe um Comentário