Mudança na liderança do Mastodon
Eugen Rochko, criador do Mastodon, anunciou que deixará o cargo de CEO da rede social de código aberto e descentralizada, que se posiciona como concorrente do X. Essa mudança faz parte da transição da organização para uma estrutura sem fins lucrativos, iniciativa registrada no início do ano. Este é o mais significativo rearranjo de liderança que o Mastodon já experimentou até agora e busca garantir a longevidade da plataforma.
Nova estrutura de governança
Como parte da reestruturação da organização, o Mastodon será gerido por um conselho diretor. Este conselho inclui nomes como Biz Stone, cofundador do Twitter, Karien Bezuidenhout, Esra’a Al Shafei, a Diretora da Comunidade do Mastodon, Hannah Aubry (que também deixará o cargo), e Felix Hlatky, que assumirá a função de Diretor Executivo.
Com esta reformulação, o Mastodon poderá expandir seus negócios, produtos e objetivos, sem depender da liderança de uma única pessoa. Além disso, a mudança proporcionará a Rochko uma pausa, uma vez que ele esteve intensamente focado no Mastodon nos últimos dez anos.
Para o futuro, Rochko continuará a contribuir com o Mastodon na função de conselheiro. Ele também recebeu um pagamento único de 1 milhão de euros, em reconhecimento ao fato de que ele recebeu um salário abaixo do mercado ao longo dos anos enquanto trabalhava para desenvolver a plataforma.
Além de Rochko, o novo time de liderança inclui Renaud Chaput como Diretor Técnico, Andy Piper como Chefe de Comunicações, e Philip Schröpel como Consultor de Estratégia e Produto. No total, o Mastodon conta com 10 funcionários em tempo integral.
Burnout e a decisão de resignar
Rochko afirmou que chegou à conclusão de que era necessário abrir mão do cargo, uma vez que o Mastodon cresceu a ponto de ser maior do que ele poderia gerenciar sozinho, além de estar enfrentando um burnout. “O Mastodon se tornou meio que sinônimo da minha identidade. Não consigo olhar para qualquer lugar e ver algo sobre redes sociais sem pensar em como isso afeta meu trabalho”, explicou Rochko em uma entrevista à TechCrunch. “Quero que isso funcione. E isso gerou uma pressão enorme, que, obviamente, me levou ao burnout”, complementou.
“Acho que dar um passo para trás, percebendo que isso já não é mais só meu – que agora outras pessoas estão envolvidas, outras pessoas são responsáveis por isso – vai me permitir restaurar algumas equilibradas na minha vida”, disse ele. Rochko ainda sugeriu que outros façam o mesmo, quando possível, afirmando que “definitivamente investir todo o seu tempo no trabalho não é saudável, porque depois você ficará sem nada”.
Essa mensagem contrasta com a nova ética de trabalho incessante que se espalhou pelo Vale do Silício na era da inteligência artificial, onde fundadores têm adotado uma cultura de trabalho intenso, seguindo até mesmo o rigoroso calendário “996” da China (trabalhando das 9h às 21h, seis dias por semana).
Próximos passos: transição para o modelo sem fins lucrativos
Com a nova estrutura sem fins lucrativos, o Mastodon conseguirá desbloquear novas oportunidades de financiamento, especialmente na Europa, observou Hlatky, o novo Diretor Executivo. A organização já fez a transição para o modelo sem fins lucrativos nos Estados Unidos e ainda trabalha para estabelecer uma entidade sem fins lucrativos na Bélgica, ou uma AISBL, para substituir a entidade na Alemanha, que perdeu seu status de organização sem fins lucrativos no ano passado. Uma vez estabelecida, a entidade sem fins lucrativos na Bélgica será a futura sede da organização. Enquanto isso, a 501(c)(3) nos EUA será responsável pela propriedade da marca e de outros ativos relacionados.
Para auxiliar nessa transição, o Mastodon arrecadou fundos de Jeff Atwood, fundador do Stack Exchange, e da família Atwood (que doou 2,2 milhões de euros); Biz Stone; do mercado de aplicativos alternativos AltStore (260 mil euros); da Comunidade Chinesa Global de Bens Digitais Universais (65 mil euros); e de Craig Newmark, fundador do Craigslist.
Hlatky, que possui formação em negócios e finanças no setor tecnológico, atuou como consultor pro bono para o Mastodon antes dessa transição e ajudou a organização a estabelecer sua entidade sem fins lucrativos na Alemanha. Ele afirma que, por meio de seu trabalho, ficou desencantado com o sistema típico de startups envolvendo capital de risco. “Funciona para os casos excepcionais, mas para todos os outros, não funciona”, disse Hlatky. “Eu simplesmente fiquei entediado com o sistema e não via mais significado em contribuir com ele.”
Na sua nova posição, Hlatky pretende dialogar mais com as partes interessadas da indústria e com a mídia, enxergando a oportunidade de aumentar o engajamento de políticos, partidos políticos e jornalistas na plataforma. Ele também ajudará a supervisionar projetos que buscam tornar o Mastodon mais financeiramente sustentável, incluindo um novo negócio de hospedagem e moderação. Outros membros da equipe de liderança também se concentrarão em questões de confiança e segurança, infraestrutura técnica e produtos.
Um ponto que o Mastodon não priorizará é qualquer tipo de interoperabilidade nativa entre sua plataforma, que utiliza o protocolo ActivityPub, e outras redes sociais descentralizadas como Bluesky, que opera com o AT Protocol, ou aquelas que utilizam o nostr, um protocolo preferido pelo cofundador e ex-CEO do Twitter, Jack Dorsey. Em vez disso, o Mastodon deixará a interoperabilidade para os desenvolvedores de projetos de terceiros, como Bridgy Fed e Bounce. Esses diferentes protocolos são essencialmente padrões técnicos concorrentes sobre como as redes sociais descentralizadas se comunicam.
Mastodon e o futuro das redes sociais
Ao reestruturar o Mastodon, Rochko acredita que a organização manterá sua posição como uma rede social “à prova de bilionários”. Essa declaração de missão também foi adotada pelo Bluesky, uma rede que se expandiu além do Mastodon, com 40 milhões de usuários registrados, em comparação com os 10 milhões do Mastodon. Em ambas as redes, uma quantidade menor desses usuários é ativa mensalmente.
No Mastodon, o número de usuários ativos mensais caiu para menos de 1 milhão, depois do pico em 2022, que ocorreu após a aquisição do Twitter por Elon Musk. Antes do fechamento do negócio, o Mastodon tinha cerca de 200 mil usuários ativos mensais; após a aquisição, esse número saltou para 2 milhões.
Rochko acredita que isso indica uma demanda por uma plataforma que não é controlada por um bilionário. “Threads, Instagram e Facebook pertencem a um bilionário. O X pertence a um bilionário… Todas essas plataformas pertencem a pessoas extremamente ricas, e elas estão cada vez mais usando essas plataformas para direcionar a percepção pública, a conversa pública e a política,” destacou. “E o Mastodon é uma das muito poucas – se não a única – dessas organizações e plataformas de redes sociais, assim como o fediverse como um todo, que não está sujeita a algo desse tipo”, concluiu Rochko.